A estreia da série Tremember reacendeu um debate urgente no Brasil: a transformação de criminosos em protagonistas e figuras quase mitológicas dentro do entretenimento nacional. Embora a produção tenha alcançado grande atenção do público, a repercussão também evidencia um fenômeno perigoso — o apagamento das vítimas e a exaltação dos agressores.
O discurso voltou a ganhar força após questionamentos incisivos de autoridades e especialistas, que destacam um ponto central: quem são as vítimas? A série, assim como outras produções recentes, dedica narrativa, profundidade e até empatia ao criminoso, mas ignora as verdadeiras histórias daqueles que tiveram suas vidas interrompidas.
Os questionamentos ecoam:
Quem sabe o nome dos pais de Suzane von Richthofen?
Quem se lembra do nome da filha de Alexandre Nardoni?
Quem recorda os nomes dos adolescentes mortos por Champinha?
As respostas são quase sempre as mesmas: “ninguém sabe”. A sociedade consome, comenta e debate o criminoso — o “lobo” — enquanto as “ovelhas”, as vítimas, desaparecem na memória coletiva.
A cultura que romantiza o agressor
A crítica vai além da série Tremember. Especialistas alertam para um movimento crescente de glamorização do crime que se espalha pelo cinema, pelo teatro, pela literatura e, agora, pelas plataformas de streaming. O argumento é que, ao dar protagonismo ao agressor, a sociedade corre o risco de reduzir o impacto dos crimes e dessensibilizar o público.
Casos emblemáticos são citados como exemplos dessa distorção cultural:
- Maníaco do Parque, que já ganhou documentários e se tornou objeto de culto, sendo inclusive o detento que mais recebe cartas de “interesse amoroso” para visitas íntimas.
- Criminosos que se tornam celebridades momentâneas, ganham seguidores e passam a ocupar espaços no imaginário popular como anti-heróis.
“Quando eu glamourizo o lobo e coloco no ostracismo as ovelhas, eu distorço valores fundamentais. E isso é um perigo real”, criticou uma autoridade durante debate público sobre a série.
Tremember: retrato ou espetacularização?
Embora a produção alegue trazer uma narrativa investigativa e crítica, analistas apontam que a série acaba contribuindo para esse cenário ao dedicar tempo e profundidade emocional ao criminoso — enquanto as vítimas se tornam figurantes no próprio drama.
A estética cinematográfica, a trilha envolvente e o ritmo criado para “prender a atenção” do espectador conferem camadas de humanidade ao agressor que não recaem com a mesma intensidade sobre aqueles que sofreram com seus atos.
Memória seletiva e responsabilização
O debate também expõe um ponto sensível: a memória pública tende a lembrar quem causou o mal, e não quem sofreu. Sem intenção explícita, produções como Tremember reforçam essa dinâmica.
Críticos defendem que obras desse tipo precisam, no mínimo, equilibrar a narrativa, devolvendo dignidade e centralidade às vítimas. Caso contrário, o produto final corre o risco de contribuir para o fenômeno que critica: a curiosidade mórbida e a cultura de idolatrar o criminoso.
Conclusão: entretenimento tem limites
O sucesso de Tremember demonstra que o público busca histórias reais, tensas e dramáticas. No entanto, a repercussão crítica aponta que é hora de repensar como essas histórias são contadas.
Entre informar e espetacularizar existe uma linha tênue — e ultrapassá-la pode custar caro para a sociedade. Porque, enquanto lembrarmos mais dos lobos do que das ovelhas, continuaremos reforçando uma lógica perigosa: a de que o crime vende e que vítimas são detalhes descartáveis.
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