A recente aprovação do projeto que isenta famílias de baixa renda do pagamento da conta de energia elétrica, desde que restritas ao consumo de até 80 kwh, merece uma crítica severa. A medida, vendida como avanço social, expõe, na verdade, a face cruel de um país que convive com a miséria estrutural e a ausência de políticas sérias de geração de emprego e renda.
Estamos falando de 17 milhões de famílias que não conseguem, com a força de seu trabalho, arcar com despesas mínimas como energia elétrica ou um botijão de gás. Isso não deveria ser motivo de comemoração, mas sim de indignação nacional, pois revela o tamanho da pobreza que assola o Brasil. A lógica é clara: em vez de oferecer meios dignos para que o cidadão conquiste sua autonomia econômica, o Estado se limita a criar paliativos que apenas maquiam o problema.
O antagonismo é gritante. De um lado, o governo celebra uma taxa média de desemprego de 5,9%. De outro, mais de 94 milhões de brasileiros recebem ou dependem de algum tipo de benefício assistencial. Ou seja, quase metade da população precisa ser sustentada pelo Estado para sobreviver. Esse dado desmonta a narrativa de estabilidade e evidencia que os postos de trabalho disponíveis não garantem remuneração suficiente para assegurar dignidade.
A isenção da conta de luz em troca de um limite de 80 kwh — um consumo irrisório e incompatível com as necessidades reais de uma família — reforça a dependência e perpetua a exclusão social. Trata-se de uma política de contenção da pobreza, não de superação dela. Enquanto não houver um projeto nacional robusto de incentivo ao emprego formal, valorização salarial e desenvolvimento econômico, o Brasil seguirá preso ao círculo vicioso da miséria assistida.
Em síntese, a medida é menos um avanço e mais um retrato de um país que naturalizou a pobreza, que se contenta em administrar a escassez em vez de criar oportunidades para que seu povo viva com dignidade.
Jose Rubens Cortez Filho - Professor de História
