Por Redação | NossaVozMT
O debate sobre reprovação escolar volta ao centro das discussões no Brasil, especialmente após críticas feitas por educadores e especialistas sobre a política nacional que, nas últimas décadas, reduziu drasticamente os índices de retenção. A mudança, que começou com a implementação dos ciclos contínuos e da progressão automática, buscava responder a pressões de organismos internacionais diante das altas taxas de reprovação. Porém, na prática, abriu espaço para um problema que Mato Grosso conhece bem: aprovar sem garantir aprendizagem.
Na tentativa de mascarar indicadores, o país adotou um modelo em que a reprovação tornou-se exceção — e não resultado de um processo avaliativo. A intenção era diminuir distorções idade-série, aumentar “eficiência” e mostrar evolução nos rankings mundiais. No entanto, muitos estudiosos alertam que o efeito real foi um esvaziamento da responsabilidade pedagógica e a criação de uma geração que avança de ano sem os conhecimentos essenciais.
Mato Grosso: quando o discurso não acompanha a realidade
No caso de Mato Grosso, o problema fica ainda mais evidente. O estado figura entre os que mais reduziram a reprovação nos últimos anos, porém ainda enfrenta dificuldades expressivas no SAEB, no IDEB e em avaliações estaduais internas.
Apesar das políticas de recomposição, reforço e avanços estruturais, a verdade incômoda permanece:
aprovar é fácil; garantir aprendizagem é difícil.
Com a progressão automática silenciosa, tornou-se comum encontrar estudantes do 8º ou 9º ano com dificuldades severas de leitura e escrita, assim como alunos do ensino médio com lacunas profundas em Matemática. E como esses estudantes chegaram até ali? A resposta é conhecida de todos dentro das escolas: eles foram aprovados sem condições.
A política educacional mato-grossense
Mato Grosso tem investido fortemente em programas de formação de professores, monitoramento pedagógico, plataforma digital e testes diagnósticos, especialmente após o lançamento do “MT Alfabetiza” e da intensificação do acompanhamento via SAED. Porém, nenhuma dessas iniciativas consegue avançar plenamente enquanto a cultura de “não reprovação” continuar sendo tratada como regra silenciosa.
Nos bastidores da educação estadual, gestores e coordenadores pedagógicos relatam que a orientação é sempre evitar reprovação — e isso impacta diretamente a postura do aluno, que percebe que a consequência é mínima. Em muitas escolas, inclusive da rede estadual, estudantes verbalizam:
“No fim, a gente passa”.
E, infelizmente, passam mesmo.
A consequência: avanço sem base
Quando a progressão deixa de ser mérito e se transforma em direito automático, cria-se um ciclo nocivo:
- Alunos não veem necessidade de esforço.
- Professores perdem autoridade avaliativa.
- Gestores ficam pressionados a fechar números.
- O estado melhora artificialmente seus indicadores internos.
- A aprendizagem real não avança.
Mato Grosso vem registrando avanços estruturais — escolas reformadas, plataformas digitais, programas de bolsas e ampliação da jornada escolar — mas o fundamento da aprendizagem continua ameaçado se o estudante não for responsabilizado pelo próprio percurso.
🔹 Passar de ano não é aprender
A crítica central não é contra a necessidade de evitar reprovações injustas, mas contra a política nacional que transformou o ato de reprovar em tabu. O que deveria ser instrumento pedagógico tornou-se estatística indesejada. E Mato Grosso, assim como outros estados, sente os efeitos dessa distorção dentro das salas de aula, nos índices oficiais e no cotidiano dos professores.
A educação só melhora quando existe causa e consequência.
Quando o esforço vale a pena.
Quando o mérito é reconhecido.
E quando aprovação significa, de fato, aprendizagem.
Mato Grosso tem potencial e tem recursos — mas nenhuma política será eficaz enquanto a escola permanecer refém do medo de reprovar.
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