Violência doméstica e abuso infantil avançam em Mato Grosso: dados revelam cenário alarmante e silencioso

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Casos aumentam em todo o estado, e especialistas apontam relação direta entre violência contra mulheres e abusos sofridos por crianças dentro de casa

Mato Grosso vive um cenário preocupante quando o assunto é violência doméstica e abuso sexual infantil. Levantamentos recentes da Polícia Civil e do Tribunal de Justiça revelam que os números continuam crescendo em ritmo acelerado, escancarando uma realidade muitas vezes escondida por vergonha, medo e falta de amparo.

A violência que começa entre quatro paredes está deixando marcas profundas em famílias inteiras — e, cada vez mais, atinge também as crianças. Em muitos casos, os lares que deveriam ser espaços de proteção acabam se transformando em lugares de trauma e silêncio.

Mais de 8 mil medidas protetivas e 47 feminicídios em um ano

De acordo com dados oficiais, 8.859 medidas protetivas de urgência foram expedidas em Mato Grosso somente no último semestre — um aumento de cerca de 10% em relação ao período anterior. Em 2024, 83% dos casos de feminicídio ocorreram dentro do ambiente doméstico, e 47 mulheres foram assassinadas por motivos de gênero.
A cada uma dessas mortes, uma história interrompida — e 89 crianças ficaram órfãs de mãe.

“É um mundo à parte. A violência doméstica é muito pior do que se pensa, porque as pessoas têm vergonha de falar até para a própria família”, relatou uma magistrada que atua há mais de uma década na área e que recentemente assumiu uma das varas de violência doméstica no estado.

Cresce também o número de abusos sexuais contra crianças

Paralelamente, o Tribunal de Justiça aponta que os casos de estupro de vulnerável cresceram 21% entre 2023 e 2024, saltando de 1.714 para 2.082 processos. Apenas nos primeiros quatro meses de 2025, já foram 627 novos casos registrados.
A maior parte dos abusos acontece dentro de casa e tem como autores pessoas conhecidas das vítimas, como padrastos, tios, vizinhos ou até pais biológicos.

Esses dados confirmam o alerta de especialistas: onde há violência conjugal, frequentemente há também risco de violência infantil. O ambiente familiar marcado pelo medo e pela agressividade se torna terreno fértil para múltiplas formas de abuso.

Vergonha e silêncio: as barreiras da denúncia

A dificuldade de denunciar é uma das principais razões da subnotificação. Tanto mulheres quanto crianças enfrentam vergonha, dependência financeira, medo da exposição e falta de apoio.
Em comunidades menores, como Lucas do Rio Verde e municípios vizinhos, essa barreira é ainda maior. Muitas vezes, o agressor é uma figura respeitada localmente, o que desestimula as vítimas a procurar ajuda.

“As pessoas acham que violência é só quando há marcas no corpo, mas a maioria sofre em silêncio — emocionalmente, psicologicamente e espiritualmente”, comenta uma líder religiosa que desenvolve projetos de acolhimento a mulheres em situação de vulnerabilidade.

Fé, missão e justiça: quando o chamado se torna compromisso social

O relato de uma servidora pública e pregadora que, após um jejum de 30 dias, foi convidada para ministrar em uma grande igreja sobre o tema “Violência doméstica em áreas imigrantes”, chama atenção para um ponto crucial: a importância de levar o assunto também aos espaços de fé.

Durante sua pesquisa com esposas de pastores, 78% relataram já ter acompanhado casos de violência doméstica entre membros de suas igrejas — inclusive envolvendo casais evangélicos.

“O Senhor me mostrou que não queria violência nessa família, e logo depois a vaga que estava há 12 anos sem abrir na Vara de Violência Doméstica se abriu para mim. Fui porque Ele mandou — e permaneço porque é uma missão”, relatou.

O testemunho simboliza o quanto fé, justiça e compromisso social podem caminhar juntos no enfrentamento da violência.

Ciclo de dor que pode ser rompido

Pesquisas indicam que crianças que crescem em lares violentos têm maior probabilidade de reproduzir o mesmo comportamento na vida adulta — seja como vítimas, seja como agressores.
Por isso, romper o ciclo exige mais do que punição: é preciso educação, acolhimento psicológico, políticas públicas e o engajamento da comunidade.

“Quando uma mulher rompe o silêncio, ela não salva só a si mesma. Ela salva também seus filhos e as próximas gerações”, destaca a promotora de Justiça que atua na rede de enfrentamento à violência em Mato Grosso.

Em Lucas do Rio Verde, desafios e esperança

Na região médio-norte do estado, que inclui Lucas do Rio Verde, Sorriso e Nova Mutum, a rede de proteção social tem se mobilizado para acolher vítimas e fortalecer a denúncia.
Órgãos como o CREAS, Conselho Tutelar, Delegacia da Mulher e Vara Especializada vêm atuando em parceria com escolas, igrejas e instituições civis — ainda que o número de profissionais seja insuficiente diante da demanda crescente.

Atenção e denúncia

Qualquer pessoa pode denunciar casos de violência doméstica ou abuso sexual infantil de forma anônima pelos seguintes canais:

📞 Disque 180 – Central de Atendimento à Mulher
📞 Disque 100 – Direitos Humanos (crianças, adolescentes e idosos)
🚔 Polícia Civil: 197
🏛️ CREAS Lucas do Rio Verde: atendimento presencial e sigiloso

Reflexão final

Os dados mostram que o problema é real, crescente e atinge todas as classes sociais. No entanto, histórias de fé e coragem, como a da juíza que aceitou a missão divina de enfrentar o tema, provam que a mudança começa quando alguém decide romper o silêncio e agir.

Redação | NossavozMT
Com informações da Polícia Civil, Tribunal de Justiça, Sesp-MT, MPMT e lideranças religiosas
Publicado em 15 de outubro de 2025

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