A saúde da mulher em Mato Grosso exige atenção redobrada. Apesar dos avanços na estrutura do Sistema Único de Saúde (SUS) e dos investimentos recentes do governo federal, o estado ainda registra índices alarmantes de mortalidade materna e enfrenta sérias dificuldades no acesso a exames e atendimentos ginecológicos, especialmente nas regiões mais distantes dos grandes centros.
De acordo com dados da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT), entre 2019 e 2023 foram 238 mortes maternas no estado. Desse total, cerca de 52% ocorreram por causas indiretas, como doenças agravadas durante a gestação, e 47% por causas diretas, incluindo hemorragias, eclâmpsia e complicações pós-parto. A macrorregião Sul foi a que apresentou os números mais críticos, com uma razão de mortalidade materna de 137,5 a cada 100 mil nascidos vivos — quase o dobro da média estadual.
Esses dados colocam Mato Grosso entre os estados com maior risco de morte durante a gravidez no país, um problema que se agrava pela falta de estrutura hospitalar, demora no atendimento e ausência de profissionais especializados em municípios do interior.
Falhas de acesso e desigualdade no atendimento
Embora o governo tenha anunciado, em 2025, o repasse de R$ 5 milhões para ampliar os cuidados em saúde da mulher, o desafio continua sendo a distribuição equitativa dos serviços. Muitas cidades, principalmente nas regiões Norte e Oeste do estado, não possuem ginecologistas fixos e dependem de atendimentos esporádicos, feitos por equipes itinerantes.
A unidade móvel de saúde da mulher, criada para reduzir essa lacuna, realizou mais de 8 mil atendimentos entre janeiro e setembro de 2024 — um número importante, mas ainda insuficiente diante da demanda crescente.
A dificuldade de acesso também reflete nos exames de rotina. Segundo a SES-MT, grande parte das mulheres não realiza o Papanicolau com a frequência recomendada, e o diagnóstico tardio é uma das causas para o avanço do câncer do colo do útero, que continua sendo uma das principais causas de morte feminina em Mato Grosso.
Especialistas pedem mais prevenção e conscientização
Para especialistas, é urgente fortalecer as políticas públicas voltadas à atenção primária e à educação em saúde. A ginecologista e obstetra Dra. Ana Paula Rodrigues, que atua na rede pública de Cuiabá, destaca que “a mortalidade materna não é apenas um problema hospitalar, é também um reflexo da falta de informação e de acompanhamento pré-natal de qualidade”.
Ela alerta que muitas mortes poderiam ser evitadas com atendimento mais precoce, transporte adequado e ampliação das equipes de saúde da família. “As gestantes precisam ser acompanhadas de perto. O risco aumenta quando o pré-natal é interrompido, ou quando a mulher não consegue chegar ao hospital a tempo em casos de emergência”, reforça.
Além dos riscos obstétricos, os casos de violência contra a mulher também impactam diretamente a saúde física e mental. Em Cuiabá, mais de 94% das vítimas de violência interpessoal atendidas em unidades de saúde são mulheres, segundo levantamento da prefeitura. Essas situações exigem uma rede integrada entre saúde, segurança e assistência social, o que ainda não acontece de forma efetiva em todo o estado.
Caminhos e desafios
Entre as ações em andamento estão o Programa de Cuidados Integrados em Ginecologia, que pretende agilizar consultas e exames no SUS, e o fortalecimento da Atenção Primária à Saúde da Mulher, com foco na prevenção e na ampliação do pré-natal de risco habitual.
No entanto, a solução passa também por políticas permanentes e conscientização da população. O desafio é garantir que toda mulher, independentemente de onde viva, tenha acesso a exames, atendimento humanizado e acompanhamento contínuo.
A saúde da mulher deve ser tratada como prioridade pública, e não como pauta secundária. Enquanto o acesso aos serviços continuar desigual e o diagnóstico permanecer tardio, a vida de muitas mato-grossenses seguirá em risco.
