Déficit habitacional cresce no estado
Em Mato Grosso, 65 mil famílias vivem sem acesso a uma moradia digna. Em Cuiabá, são pelo menos 22 mil famílias na mesma situação, segundo levantamento da Associação Comunitária de Habitação do Estado de Mato Grosso (ACDHAM) em parceria com a Câmara Municipal de Cuiabá. Essas famílias residem em áreas precárias, muitas vezes sem saneamento básico, em regiões de risco ambiental ou simplesmente sem condições de pagar aluguel, sendo obrigadas a “viver de favor”.
Aluguel pesa no bolso dos trabalhadores
O problema não se limita à capital. Em Lucas do Rio Verde, cidade em constante expansão econômica e populacional, o custo de moradia acompanha a valorização imobiliária. Levantamento realizado em 2023 pelo Centro Universitário La Salle apontou que:
- Casas para aluguel em bairros centrais custavam, em média, R$ 2.755,00;
- Apartamentos tinham valor médio de R$ 2.911,00;
- Kitnets chegavam a R$ 2.020,00;
- Já nas regiões periféricas, o aluguel de um apartamento girava em torno de R$ 1.550,00 e de uma kitnet em R$ 820,00.
Esses valores mostram como até viver de aluguel tem se tornado inviável para famílias que dependem de salários médios ou baixos.
Nova Mutum, Sorriso e Sinop também sentem a pressão
Em Nova Mutum, considerada uma das cidades mais organizadas do estado, os valores de aluguel já se aproximam da realidade de Lucas do Rio Verde. Apartamentos de dois quartos ultrapassam facilmente R$ 2.000,00, e casas em bairros centrais podem chegar a R$ 3.000,00 mensais.
Em Sorriso, maior produtor de soja do país, a valorização imobiliária segue a mesma lógica: crescimento econômico acelerado e aumento contínuo da demanda. Aluguéis de kitnets variam entre R$ 900,00 e R$ 1.200,00, enquanto apartamentos de médio padrão custam entre R$ 1.800,00 e R$ 2.500,00.
Já em Sinop, polo regional do norte de Mato Grosso, o aluguel médio de apartamentos em áreas valorizadas já ultrapassa R$ 2.500,00, e casas de três quartos chegam a R$ 3.500,00. Em regiões mais periféricas, ainda é possível encontrar valores mais acessíveis, mas mesmo nesses bairros os preços giram em torno de R$ 1.200,00 a R$ 1.600,00.

Esse panorama mostra que a especulação imobiliária não é isolada em Cuiabá ou Lucas do Rio Verde: as principais cidades do norte mato-grossense estão cada vez mais inacessíveis para famílias de baixa renda.
Moradia: um direito que vira dívida
Para muitas famílias, os programas de financiamento habitacional surgem como solução. No entanto, como alerta a professora de Serviço Social da UFMT, Lélica Elis Pereira de Lacerda, a médio e longo prazo eles podem intensificar o problema.
“Esses financiamentos alimentam a especulação imobiliária, que encarece ainda mais o valor das moradias. No fim das contas, quem comprou acaba preso a dívidas longas, enquanto outras famílias ficam sem condições de adquirir pelo preço anterior”, explica.
Mulheres negras e mães solo na linha de frente da pobreza
A professora destaca que o déficit habitacional atinge principalmente os mais vulneráveis. “São mulheres negras, empobrecidas, mães solo, que não têm escolaridade e que, em grande parte, trabalham em serviços absolutamente precarizados para poder suprir a vida”, afirmou.
Nesse cenário, até mesmo programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, desempenham papel essencial para amenizar o problema. Contudo, eles ainda não são suficientes para enfrentar a raiz da questão: a especulação imobiliária que transforma a casa própria — e até o aluguel — em luxo inacessível para milhares de famílias mato-grossenses.
O retrato do interior em crescimento
Enquanto cidades como Lucas do Rio Verde, Nova Mutum, Sorriso e Sinop se consolidam como polos de agronegócio e atraem novos moradores em busca de emprego, o setor imobiliário avança em ritmo acelerado. O resultado é claro: crescimento econômico de um lado e exclusão habitacional de outro.
O retrato é preocupante: em Mato Grosso, morar dignamente deixou de ser um direito universal e passou a ser um privilégio restrito a quem consegue vencer a corrida dos preços.
