Milhões parados, crianças sem vaga: o retrato da educação em Lucas do Rio Verde

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A educação pública de Lucas do Rio Verde vive um momento de alerta. Em ofício encaminhado à secretária municipal de Educação, Elaine Benetti Lovatel, o Sindicato dos Trabalhadores no Ensino Público de Mato Grosso (Sintep-MT), subsede local, escancarou uma série de falhas na gestão do Fundeb e denunciou a incapacidade da prefeitura em atender à crescente demanda por vagas, sobretudo nas creches.

O documento, assinado pelo presidente do sindicato, Eriksen Carpes, questiona não apenas a falta de planejamento, mas também indícios de má gestão financeira. Segundo o Sintep, há divergências nos saldos do Fundeb: enquanto o extrato bancário registra R$ 20,4 milhões, a prefeitura apresenta apenas R$ 15,8 milhões conciliados até o 3º bimestre. Além disso, mais de R$ 10,7 milhões ficaram parados no início do ano, sem aplicação efetiva em políticas educacionais.

Crianças fora da escola

A situação mais grave recai sobre as famílias. De acordo com os dados levantados, 135 crianças aguardam vaga em creches municipais, sobretudo em berçários e turmas do Infantil I e II. O sindicato lembra que o direito à educação infantil é garantido pela Constituição e reafirmado pelo STF, o que torna a omissão do município ainda mais grave.

Enquanto isso, a pressão por novas turmas só cresce com a chegada de novas famílias à cidade, mas a Secretaria de Educação não apresentou um plano claro para zerar a lista de espera.

Recursos existem, mas não chegam à sala de aula

Outro ponto crítico está na forma como os recursos são gastos. O Sintep denuncia que R$ 7,46 milhões estão previstos para repasses a instituições conveniadas – comunitárias, confessionais ou filantrópicas –, sem transparência sobre quais são essas entidades e como é garantida a equidade em relação à rede pública.

Os custos do transporte escolar também chamam atenção: R$ 5,39 milhões em 2025, valor muito acima dos repasses federais. Para o sindicato, o transporte virou um gargalo que consome recursos que poderiam ser aplicados diretamente na sala de aula e na valorização dos profissionais.

Modelo de municipalização em xeque

O ofício ainda critica o modelo de municipalização adotado, que sobrecarrega o município ao assumir matrículas de menor ponderação – como creches e anos iniciais –, enquanto o Estado mantém etapas mais bem financiadas, como anos finais e ensino médio. O resultado, segundo o sindicato, é um desequilíbrio orçamentário que penaliza professores e estudantes.

Falta de prioridade política

Para o Sintep, o quadro atual revela uma contradição: mesmo com receitas em alta, a gestão municipal falha em transformar os recursos em melhorias concretas. “A falta de transparência compromete o controle social e ameaça a qualidade da educação”, alerta o documento.
A denúncia é clara: o problema não é a falta de dinheiro, mas a forma como ele é administrado. Enquanto milhões permanecem parados ou mal aplicados, crianças continuam sem acesso à educação infantil e professores enfrentam a precarização das condições de trabalho.
Agora, a sociedade lucas-rio-verdense aguarda se a Secretaria de Educação vai dar respostas ou se continuará empurrando para o futuro soluções que já estão atrasadas.

José Rubens Cortez Filho – Professor de História

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